Paz Global

“O mundo está em uma crise do nascimento. Cada sistema está dividindo e ao mesmo tempo as inovações e as descobertas estão emergendo em toda parte.
A meditação para a paz, o rufar de todas as tribos, a música - todos são junto um sinal da ressonância global e a harmonia despertar a humanidade nova”

sábado, 23 de agosto de 2008

OS XAMÃS



O segredo dos xamãs


O que leva tantos habitantes de metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo a celebrar um ritual ancestral que privilegia o contato com a natureza

Uma fogueira sagrada está ardendo neste exato instante em algum lugar no Rio de Janeiro ou em São Paulo, de preferência num bosque com rio, lago ou cachoeira. Em volta do fogo, ou de uma roda de cura, brancos e índios de tradições e culturas distintas, cherokee, cheyenne, caxinauá, tupi-guarani, asteca, tocam tambores e chocalhos, entoam cânticos para o wakan tankan ("o grande espírito" na língua lakota) e para a mãe terra. Fazem oferendas com tabaco e saúdam as quatro direções, norte, sul, leste e oeste. Rezam pelas árvores ("o povo em pé"), pelos animais ("companheiros e guias") e por todos os seres. A fogueira e os cânticos também precedem o ritual maior de purificação: a tenda do suor. Chamada pelos índios americanos de sweat lodge, e pelos andinos de temaskal, a tenda representa o útero da mãe terra. Ao entrar nessa espécie de sauna primitiva com pedras incandescentes, impregnadas do cheiro de plantas como sálvia, cedro e capim-limão, é preciso dizer: "Por todas as nossas relações". Ali, explicam os iniciados, assume-se um compromisso. Você não precisa ser xamã ou pajé para saber que, ao submergir na escuridão da tenda, está atendendo a dois "chamados": buscar o autoconhecimento e contribuir para a felicidade de seus próximos e do planeta. Se você não estiver sendo sincero nem tiver fé, é perda de tempo. Estará enganando a si mesmo. E suando à toa.

O que tem levado grupos de católicos, espíritas, judeus, agnósticos, de todas as idades e níveis de instrução, a dar um tempo em sua vida e mergulhar em práticas que nada têm a ver com o cotidiano urbano? Suar por duas horas, sentado na terra batida, ouvindo o bater dos tambores. Um programa de índio. Cantar palavras em idioma lakota cujo significado ignoram. Revelar coisas íntimas que podem não ter contado ao melhor amigo. E, às vezes, associar a tenda do suor à cerimônia da ayahuasca, o chá de plantas da Amazônia (rainha e cipó) que leva a uma expansão da consciência por muitas horas. O uso da ayahuasca é legal, mas o peyote (cacto cuja substância alucinógena é a mescalina) ainda é proibido no Brasil, embora seja o chá da cerimônia nativa americana.

Quem chega pela primeira vez a esses encontros, às vezes levando filhos, ou levando mães, depara com uma espécie de "família" bem peculiar. O elo é estabelecido mais pela natureza e pela música que por qualquer teoria. Um fim de semana na Aldeia do Sol, por exemplo, perto de Paracambi e Vassouras, saindo da Rodovia Presidente Dutra, oferece um encadeamento de cerimônias, da lua, do sol e das curas. Os anfitriões se chamam Bull e Bill. s Aos poucos, na casa decorada por gravuras e desenhos de índios, os xamânicos de primeira viagem conhecem os "objetos de poder" - tambores, chocalhos, sacolas de medicina com tabaco e ervas, queimadores, bastões da fala, apanhadores de sonhos, escudos de proteção, penas de aves. A pena da águia equivale ao crucifixo no cristianismo.

Para quem está de fora e é um ser totalmente racional, ver o grupo de xamânicos no auge, em cantos, orações ou transe, leva a uma conclusão automática: são todos loucos, herdeiros da new age, neo-hippies. Para Rogério Favilla, de 43 anos, aplicado estudioso e praticante do xamanismo, "as pessoas se sentem como se estivessem numa tribo, a cerimônia é uma ponte para que sejam elas mesmas, se você quer ser urso, pode ser urso, é uma chance de loucura sadia e generalizada, que proporciona intimidade com a natureza, a divindade da mãe terra, e o grande espírito". Os adeptos do xamanismo reconhecem estar ali em busca de outra dimensão, de um encontro com vidas espirituais passadas, com seus ancestrais e com o futuro do planeta. Loucura doentia, para eles, é outra coisa: não observar os sinais, conectar-se apenas com o corre-corre e o narcisismo, alimentar-se do ego, e viver para consumir e ter sucesso. Rogério admite que "muitos curiosos buscam equivocadamente o xamanismo como moda exótica; vêm para tomar chás de plantas psicoativas, ou perguntam como se faz para ter um animal de poder... nada é tão simples". Mas, como sempre, há os que aparecem atendendo a "chamados internos".

"O xamanismo, para mim, é o começo de tudo. Qualquer religião chega lá, na natureza, nos animais. O homem foi progredindo e se afastou de suas origens. Os xamãs resgatam a essência", diz Marilda Lacerda, uma bisavó de 68 anos, que freqüenta tendas há cinco. Marilda é kardecista, faz ioga, tai chi e pilates. É professora de Música. Vai a retiros budistas. Mas sua praia é o xamanismo. "Ali, na tenda, a gente desliga e se concentra ao mesmo tempo." Há quem se beneficie dos rituais como terapia. É o caso do professor de Filosofia Sérgio Schweder, de 51 anos, catarinense que vive no Espírito Santo: "Na tenda, várias questões existenciais minhas vieram à tona. Queria aprender a ser mais tolerante e menos rígido com meus filhos e com as pessoas".

Um dos líderes de tenda no Rio é Toni Paixão, pernambucano de Caruaru. Sempre se interessou por ufologia, egiptologia, lia hieróglifos. Nos anos 90, participou do projeto Arco-Íris, que trouxe para o Brasil terapias alternativas como os florais de Bach. Em 1995, estava presente na primeira tenda, organizada por Carlos Sauer, um dos líderes xamânicos mais famosos, que viveu nos Estados Unidos por 25 anos. A cerimônia histórica foi realizada no sul de Minas Gerais em Aiuruoca (pedra do papagaio) e liderada pelo argentino Hector Gomes.

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